De pai para filho: cooperativa desempenha papel vital na sucessão no campo

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Carlos Roberto Kempin com a família - esposa Elisa Tesch Barbosa Kempin e as filhas, Ana Luiza e Alice. Foto: Arquivo Pessoal

A agricultura familiar está presente em 75% das propriedades rurais do Espírito Santo e é predominante no setor agrícola

Passar o bastão do controle da propriedade para um filho ou filha pode representar o ápice, ou o ato final de uma missão que muitas vezes é dura, mas que, se chegou a esse ponto, foi com êxito. Mas o desejo de muitos pais de que os negócios sigam na família não é exatamente acompanhado pelos herdeiros.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30% das empresas familiares chegam na segunda geração e apenas 5% conseguem resistir até a terceira. São dados que reforçam a importância das cooperativas em trabalhar o tema com as famílias.

Ainda segundo o Censo Agropecuário realizado em 2017 pelo IBGE, em todo o Brasil 11,1 milhões de pessoas com 14 anos ou mais trabalhavam no campo e tinham laços com o produtor. No Espírito Santo, esse número foi de 228,4 mil. Este é o levantamento mais recente realizado pelo órgão federal.

Com o objetivo manter os negócios em família e os jovens no campo, cooperativas de todo Espírito Santo se esforçam em capacitar os cooperados e os ajudar a deixar o caminho trilhado para a próxima geração.

Os esforços do presidente da Cooperativa Agrária de Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), Luiz Carlos Bastianello vão nesse sentido. Para ele, trabalhar a sucessão familiar nas cooperativas é uma questão de sobrevivência. “No nosso quadro de sócios, 80% trabalha em família. E vemos que muitos filhos não querem seguir no campo. É um fato preocupante”, revelou.

Presidente da Cooperativa Agrária de Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), Luiz Carlos Bastianello. Foto: Divulgação

De acordo com o presidente da Cooabriel, dos 6.574 sócios da cooperativa, apenas 0,13% têm 18 anos, enquanto 1,18% possui entre 19 e 24 anos, 9,5% tem de 25 a 34 anos. A grande maioria está na faixa etária de 35 a 69 anos. “Percebemos que por algum problema não está se fazendo a sucessão. Por isso elaboramos um projeto que vamos apresentar aos cooperados”, explicou Bastianello.

A ideia da Cooperativa é lançar um plano piloto entre 20 ou 30 famílias. “Vamos contratar consultores e trabalhar com esse grupo para, aos poucos, incluir esta cultura nos cooperados. Mas não é algo que se faz de uma hora para outra. É necessário aprofundar o tema por ao menos 6 meses para que a capacitação seja completa”, revelou Luiz Carlos.

Paralelo a consultoria, a cooperativa também vai realizar palestras nas assembleias para desenvolver melhor o tema da sucessão com os produtores.

É um trabalho importante porque a agricultura familiar está presente em 75% das propriedades rurais do Espírito Santo e é predominante no setor agrícola, um trabalho desenvolvido por cerca de 213 mil agricultores familiares de acordo com as informações do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

A sucessão familiar no campo também é prioridade na secretaria de Estado de Agricultura. “Sabemos a necessidade de incluir os jovens e as mulheres como protagonistas das atividades agrícolas. Trabalhamos principalmente estruturando o campo, melhorando estradas, aplicando revsol, colocando redes de telefonia e internet nas localidades. Também estamos desenvolvendo um projeto para levar fibra ótica para o meio rural. Assim, incentivamos as pessoas a continuarem nessa atividade”, disse Andreliano Márcio Mareto, Gerente de Agricultura Familiar da Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag).

O bom exemplo que vem de casa

Bruno Salvador Bergamin tem 31 anos, é cooperado da Cooabriel desde 2010 e tem formação como Jovem Liderança Cooperativista na primeira turma formada no Espírito Santo. O incentivo para a permanência no campo veio por intermédio do pai, Walter José Bergamin, de 60 anos, e cooperado desde 1994.

Foi na década de 1980 que Walter Bergamin, que trabalhava com o pai e os irmãos em Nova Venécia, recebeu como doação, após se casar em 1986, 15 hectares de terra em Boa Esperança. “Nos primeiros anos ele ainda trabalhava nas duas propriedades, na do meu avô e na dele. Começando a cuidar da sua terra ainda devagar. E olha que nas terras que ele recebeu era tudo muito precário. Não tinha casa, água ou energia elétrica. Começamos do zero mesmo”, lembrou Bruno.

Bruno Bergamin com a esposa Leonica Barbosa e a filha Lara. Foto: Arquivo Pessoal

A primeira plantação do lugar foi o aipim. Como o retorno da lavoura foi bom, decidiram seguir investindo no sítio de Boa Esperança. “E o resultado foi um grande prejuízo. Como o preço estava baixo, mais de 90% da produção foi perdida. Sem desanimar, decidiram investir no café. Ainda de forma muito rústica, plantaram a primeira lavoura de café”, contou Bruno Bergamim.

Com o passar dos anos e muito trabalho duro, a propriedade prosperou. Com 35 anos de idade, o lugar tem hoje 700 hectares e é orgulho da família que pensa em expandir. A terra é dividida entre reserva legal, barragem, cafeicultura (Conilon), extração de borracha natural, pimenta rosa e pecuária de corte.

Walter José Bergamin, patriarca da família. Foto: Arquivo Pessoal

O resultado desse trabalho é o melhor possível. A plantação de café rende entre 07 e 08 mil sacas por ano, a área de corte tem uma produção de 06 mil arrobas de boi gordo anualmente, a borracha tem uma produção de 60 toneladas/ano e a pimenta rosa 20 toneladas. E os planos são de expansão.

“Hoje essa produção é realmente muito grande. Mas o começo foi de incertezas e, quando criança, havia ainda aquela vontade dos meus pais para que eu procurasse uma profissão. Mas, paralelo a isso, sempre fui levado a acompanhar todo o trabalho na roça e fui tomando gosto. Quando meu pai viu que a propriedade estava prosperando, veio o incentivo para seguir junto. E por isso, mesmo com formação em duas faculdades (Tecnólogo em Petróleo e Gás e Engenharia Ambiental), sigo no campo”, avaliou Bruno.

A família reconhece que estar cooperado ajudou no processo de sucessão. “A Cooabriel sempre promoveu muitas palestras e atividades voltadas para este tema. Tudo isso ajudou muito. Sou casado há quatro anos e tenho uma filha também de quatro anos e uma enteada de dezesseis. Levo elas sempre para a roça. Moramos na propriedade e acredito que isso vai fazer com que elas desenvolvam esse gosto pelo campo”, espera.

União familiar

Outro grande exemplo de sucessão no campo vem da família Kempim. Cooperados à Cooabriel desde 1985 com o patriarca Bertolo Kempim, as atividades tiveram sequência com o filho, Frederico Ademar Kempim, a nora Vonia Kempim e os netos, Carlos Roberto e André Felipe.

Administrando duas propriedades, uma no Córrego Queixada, em São Gabriel da Palha e outra em Flor de Maio, Vila Valério, Carlos Roberto Kempim sempre trabalhou com café. Nos locais, ele possui 19 mil plantas e retira, em média, 1,5 mil sacas de café anualmente. Desde cedo, Carlos foi incentivado pelo pai a continuar no campo.

“Somos em três irmãos aqui e desde muito crianças fomos incentivamos por nosso pai. Todos estamos trabalhando na roça. Desde meu avô, meu pai, conseguimos seguir aqui. A cooperativa é muito importante nesse contexto porque a minha família sempre esteve nela. Ela nos dá uma segurança no armazenamento, fornece capacitação e facilidade de financiamento, é muito boa para nós”, disse.

Carlos Roberto contou que a vida no campo já foi muito difícil. “Agora, com a tecnologia tudo melhorou muito. Temos irrigação, automação, trator, pulverizador. Enfim, ficou mais fácil de trabalhar. As condições melhoraram muito. Avaliando bem, nós gostamos de trabalhar aqui. Existem as épocas ruins, mas no final vale a pena”, contou.

Outro fator decisivo para seguir atuando no agronegócio são as constantes capacitações oferecidas pela Cooabriel. “Os cursos, palestras e os Dias de Campo são muito importantes para nós. Estar conectado com essas tecnologias nos ajuda a melhorar e conseguir uma renda maior. Se o produtor trabalhar sozinho muitas vezes ele não vai conseguir. Os técnicos que nos acompanham pela cooperativa nos favorecem demais”, afirmou Kempim.

Pai de duas filhas, uma de seis e outra de quatro anos, Carlos Roberto já trata da sucessão diretamente com elas. “Conversamos sempre sobre as dificuldades de trabalhar na cidade, sobre os baixos salários, e ressaltamos as vantagens de trabalhar sobre o que é nosso”, revelou.

É o ciclo da vida no campo se renovando. De pai e mãe para filho, ou filha, as experiências vão se renovando e o trabalho que garante a sustentabilidade de toda sociedade segue. (Leonardo Quarto – Revista Procampo)

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