Cooperativas de crédito. Uma história que vale a pena ser contada

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Neia e Ivan produzem em média 1200 vidros de palmito por mês. Foto: Divulgação

Há 30 anos cooperativa de crédito movimenta cenário do agronegócio capixaba e transforma vida de produtores rurais

Por Rosimeri Ronquetti
rronquetti@hotmail.com

À primeira vista as cooperativas de crédito são bancos como outros quaisquer. Mas não é bem assim. Os serviços oferecidos são os mesmos de um banco tradicional, a diferença é que nas cooperativas os associados são donos do negócio e participam ativamente da gestão, por meio das assembleias.Há três décadas nascia o Sicoob, instituição financeira cooperativa criada com o objetivo de oferecer crédito rural aos produtores do interior capixaba que com o passar dos anos ampliou seu portfólio de produtos e serviços.

“Há 30 anos, era difícil obter crédito para a agricultura. Então, nós nos empenhamos para constituir o Sicoob e trazer esse produto para os associados. Depois, fomos trabalhando para modificar a legislaçãoe isso propiciou bons resultados para os cooperados”, afirma o presidente do Sicoob-ES, Bento Venturim, que dirige a cooperativa desde o início.

O Sicoob é uma cooperativa, por isso não visa ao lucro. Essa característica propicia as taxas médias mais baratas do mercado.A meta é prestar o melhor serviço com o menor custo para os associados, que são os donos do empreendimento, e não obter ganhos para remunerar os investidores.

Em 2018 dos R$ 4,3 bilhões emprestados R$ 642,5 milhões foram direcionados ao segmento rural. Ao longo dos últimos cinco anos são mais de R$ 2,9 bilhões investidos no agronegócio. Nailson Dalla Bernadina, diretor-executivo do Sicoob ES, salienta que o apoio da instituição aos associados propicia o surgimento de novos negócios e contribui para a circulação de dinheiro nos locais em que a cooperativa está inserida. “O incentivo ao setor rural é de extrema importância para o desenvolvimento da economia, em níveis regional e nacional e para o fortalecimento de iniciativas que visem à otimização de recursos. O ganho é para toda a sociedade”, destaca Dalla Bernadina.

Carlos André Santos de Oliveira Superintendente do Sistema OCB/ES, destaca a importância das cooperativas de crédito para o agronegócio do estado. “O cooperativismo de crédito é fundamental para a produção rural. No contexto capixaba, em especial, esse ramo do cooperativismo começou forte nas cidades do interior, intimamente ligado às atividades agropecuárias dos seus sócios fundadores nas cooperativas agropecuárias. As cooperativas estão próximas ao produtor e aos comerciantes do interior, entendem suas necessidades, costumes, tradições, mercado e análise adequada de riscos, baseada em fatores locais, variáveis que permitem a oferta de produtos financeiros adequados ao pequeno, médio e grande produtor, respeitando suas peculiaridades”, explica Oliveira.

Vidas transformadas

Maior repassador do Estado de recursos do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé) a instituição financeira cooperativa trabalha ainda com diversas linhas próprias para atender os empreendedores do campo, auxiliando no desenvolvimento de seus negócios rurais.

Pessoas como o casal Ivan e Ednélia Milanesi que viram no empréstimo concedido pela Cooperativa a mãozinha que faltava para construir um espaço adequando para instalação de uma agroindústria para o beneficiamento de palmito, até então no papel. Moradores da localidade de Córrego Seis Horas, interior de Marilândia, Ivan e Neia, como é conhecida, sempre trabalharam com café até o dia em que o irmão de Ivan, o Engenheiro Agrônomo, hoje falecido, Danilo Milanesi, sugeriu o plantio de palmito Açaí para embelezar a propriedade e também para o próprio consumo.

Mas não foi isso que aconteceu. Após um longo período de testes passaram a produzir o palmito em conserva,de maneira totalmente artesanal, em um fogão improvisado na área de serviço de casa. Aos poucos as pessoas foram tomando conhecimento da novidade e as encomendas começaram a surgir. Neia faz questão de lembrar que “aqui entra o Sicoob na história da família”.

Palmito produzido na propriedade da família Milanesi, pronto para a comercialização. Foto: Rosimeri Ronquetti

“Nós tínhamos vontade de fazer e as pessoas procuravam para comprar, mas a produção era pouca. Vimos que o negócio daria certo,porém faltava dinheiro para investir, o café era pouco, não sobrava para investir em nada que não fosse a própria lavoura. No meio disso tudo surgiu a oportunidade da linha de crédito do Sicoob”, conta Ivan.

Apesar de resistir no início, em 2008 Ivan aceitou fazer o empréstimo. Pegaram R$ 10mil reais com juros de 4% ao ano, três anos de carência e sete anos para pagar. Com esse dinheiro construíram a tão sonhada fábrica e ampliaram a produção de 400 vidros de palmito mês para cerca de 1200. Em 2010 fizeram um segundo empréstimo com o mesmo valor e nas mesmas condições de pagamento que o primeiro, ampliaram a fábrica e compraram um tacho para cozimento industrial com capacidade para produzir 200 vidros de palmito de vez.

“Sem o empréstimo do Sicoob não sei se teria conseguido. Fiz um investimento e com a própria produção conseguimos pagar. Se você souber investir o empréstimo do Sicoob é muito bom, é um excelente negócio. Na época até procuramos em outra instituição bancária, mas, além da burocracia e das taxas, o juro era maior, ficava inviável”, salienta Ivan.
Neia lembra também que quando tomaram a decisão de fazer o primeiro empréstimo as duas filhas do casal estavam em idade de fazer faculdade e formar as filhas, uma odontologista e outra psicóloga, só foi possível com a renda do palmito. “Era nosso sonho formar bem as nossas filhas, mas não tínhamos condições, só com o café não daria, conseguimos graças a renda extra do palmito”, comenta Neia.

Além dos três hectares de palmito Pupunha e Açaí cultivados na propriedade da família, para dar conta de suprir as demandas, Ivan também compra palmito em outras propriedades da região de Marilândia e Linhares. Toda produção, desde as mudas, passando pelo plantio, cultivo, colheita e beneficiamento, é feita pelo casal com a ajuda de duas ou três pessoas, dois dias por semana.

Proximidade x resolutividade

Durante nossa conversa com Neia e Ivan, outra vantagem descrita, do Sicoob em relação aos outros bancos, foi o bom relacionamento com os colaboradores da cooperativa e a rapidez no processo. Mudamos de município, de personagem e de atividade agrícola, mas a história se repete. Em Rio Bananal, Córrego Boa Vista, Comunidade de Santo Izidoro, conhecemos o cafeicultor Geraldo Agnaldo de Souza e sua família.

Naldinho como é conhecido, sempre trabalhou com café. Meeiro há 30 anos em 2018, com as economias de uma vida inteira,realizou o sonho de comprar seu primeiro alqueire de terra. Agora era hora de cuidar do terreno e plantar, mas faltavam recursos. Associado ao Sicoob desde 2003 Naldinho recorreu ao empréstimo na cooperativa. “O dinheiro que eu tinha usei para comprar a terra e não sobrou recurso para fazer o plantio do café. Se não é o Sicoob com o empréstimo nessas condições eu não tinha como plantar café, não tinha de onde tirar dinheiro”, relata o agricultor.

Naldinho com a esposa Claudineia e o filho Sávio na lavoura plantada com recursos da cooperativa de crédito. Foto: Rosimeri Ronquetti

Ele conta que entrou com o pedido em agosto, assim que comprou o terreno e o dinheiro saiu em dezembro do mesmo ano. Em março de 2019 já estava plantando o café. Naldinho atribui essa rapidez ao fato de ser uma cooperativa, o bom relacionamento que tem com os colaboradores e a maneira que tratam os associados. “Todos tratam a gente muito bem. O gerente da mesma forma que trata quem tem dinheiro trata a gente que é pobre. Os funcionários fazem questão de te cumprimentar. Não é só uma relação comercial, são pessoas que te recebem e te tratam com respeito. Já tive experiência com um outro banco onde meu patrão fez um financiamento e não era a mesma coisa”, ressalta.

Fabricio Pola, Gerente da agência onde Naldinho fez o empréstimo, diz que o fato de ser uma cooperativa de crédito, onde o produtor é um associado e não um correntista, facilita o processo de liberação do empréstimo. “O fato da pessoa ser um sócio nos aproxima mais dela. Conhecemos mais essas pessoas, por isso o tratamento diferenciado”.

Com os R$ 120 mil do crédito Naldinho preparou a terra, comprou 16 mil mudas de conilon, montou o sistema de irrigação e plantou o café. O empréstimo terá três anos de carência e será pago em sete anos, com taxa de 4,5% ao ano.

Do Agronegócio, passando pela cafeicultura até chegar a pecuária

A cooperativa disponibiliza financiamentos conforme a necessidade do associado. As linhas podem ser utilizadas, por exemplo, para cobrir despesas do ciclo produtivo ou para fazer investimentos.Nailson explica que: “apenas os recursos do Funcafé são direcionados especificamente aos cafeicultores. Os demais financiamentos são acessíveis a todos os produtores rurais, independente da cultura ou tipo de produção”.

O produtor rural pode financiar máquinas e implementos agrícolas, instalação de sistemas de armazenagem e de irrigação, ações de preservação ambiental, adequação e correção de solo,projetos de melhoria genética, recuperação de pastagens, custeio da propriedade e aquisição de animais para cria e recria.

Associado ao Sicoob desde que a cooperativa entrou em operação em Linhares, o pecuarista José Luiz Casati conta que desde que tem conta no Sicoob, sempre que precisa de recursos para custeio de suas fazendas, ou compra de animais, recorre ao banco. Para ele o fato de ser uma cooperativa que te possibilita ser sócio faz toda diferença. “O fato de ser uma cooperativa ajuda muito, muito mesmo. As taxas de juros são muito boas. É um banco que facilita você conversar e fazer negócio. O acesso é muito fácil, conhecemos todos que trabalham lá. O pessoal do banco sabe quem você é. Temos uma conta capital que todo correntista tem, somos sócios do banco”, pontua Casati.

Pecuarista José Luiz Casati usa crédito do Sicoob para custeio e compra de animais. Foto: Marcelo Vianna

Raio x das cooperativas de crédito ES e no país

Em todo país são 967 cooperativas de crédito, cerca de 10 milhões de associados e uma movimentação que passa dos 100 bilhões de reais entre pessoas físicas e jurídicas. Entre 2013 e 2017 as cooperativas de crédito tiveram um crescimento médio de ativos de 27% ao ano no país. A maior parte das cooperativas de crédito do Brasil estão na região Sul.

No Espírito Santo são 126 agências cooperadas que juntas possuem cerca de 300 mil associados. Essas agências estão de norte a sul do estado distribuídas da seguinte maneira:
Sicoob Norte, agências de São Gabriel da Palha e região, Sicoob Leste Capixaba, agências da Serra, Linhares e região; Sicoob Centro-Serrano agências de Vila Velha, Santa Maria de Jetibá e região, Sicoob Sul-Serrano, agências de Venda Nova do Imigrante e região, Vitória e Cariacica, Sicoob Sul, agências de Cachoeiro e região, Sicoob Sul-Litorâneo, agências de Alfredo Chaves e região, Guarapari e Viana, Sicoob Credirochas, agências em Cachoeiro, região Sul. A região com maior número de unidades é a Centro-Serrano com 26 agências.

Acesso ao crédito

Dalla Bernadina explica que o Crédito Rural deve possuir uma destinação específica para o produtor rural e para a propriedade rural. Para ter acesso ao crédito o agricultor precisa ser associado, ter a posse da propriedade e estar em dia com os impostos. Entre outros documentos são necessários: relatório de Empreendimento Rural Custeio, projeto técnico, Cadastro Ambiental Rural (CAR), Certidão de ônus do imóvel dado em garantia, comprovante de quitação do Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), licença ambiental ou dispensa da mesma e outorga de uso da água, para projetos que contemplem irrigação.

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