Defensivos biológicos. Caminho sem volta

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Foto: Divulgação

O controle biológico de pragas e doenças já é uma realidade na agricultura brasileira. E ainda promete muito

O número de defensivos biológicos registrados em 2018, divulgados recentemente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), não deixam dúvidas: o uso desses defensivos é um caminho sem volta. Foram registrados durante todo ano passado 52 novos defensivos de baixa toxicidade, o que representa um crescimento de 12,5% em relação a 2017 e recorde para esta categoria de produtos.

Se por um lado os números de registros desses produtos crescem, de outro, a economia gerada por sua comercialização não fica para trás. É o que aponta o levantamento feito pela Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABC Bio). Segundo o estudo a atual área tratada com biodefensivos no Brasil é de 10 milhões de hectares, e o segmento responde pela movimentação anual de R$ 528 milhões (US$ 164,9 milhões ao câmbio de fevereiro/2018).

A atual área tratada com biodefensivos no Brasil é de 10 milhões de hectares. O segmento responde pela movimentação anual de R$ 528 milhões. Acima, o engenheiro agrônomo Vitor Bobbio Resende e o empresário e produtor rural Bruno Pessotti. Foto: Revista Procampo

Representante de uma das maiores fabricantes de defensivos biológicos do país no Espírito Santo, Daniel Arruda atribuí esse crescimento a exigência do mercado e aponta algumas vantagens comerciais e técnicas dos defensivos biológicos. “O mercado de biodefensivos tem crescido exponencialmente no país por se tratar de uma exigência do mercado por produtos que realmente sejam eficientes e sustentáveis. As vantagens são inúmeras, como carência zero para muitos produtos, não favorecimento de resistência das doenças e pragas a moléculas químicas, e maior residual na área, o que favorece o equilíbrio do sistema”, aponta Daniel.

O levantamento constatou ainda que 39% dos agricultores brasileiros utilizam produtos biológicos em alguma área de plantio de suas lavouras, apesar de revelar, também, que 57% dos produtores rurais dizem desconhecer os biodefensivos.

Resultado positivo atrai produtores

A fala de Vitor Bobbio Resende, engenheiro agrônomo e proprietário de uma revenda de produtos agrícolas em Sooretama, Norte do Estado, e de Daniel Arruda, sobre a aceitação dos agricultores, endossa os números da pesquisa.

“As vantagens são inúmeras, como carência zero para muitos produtos, não favorecimento de resistência das doenças e pragas a moléculas químicas, e maior residual na área, o que favorece o equilíbrio do sistema”, aponta Daniel Arruda. Foto: Arquivo pessoal

“Trabalhamos com os defensivos biológicos desde 2017 e no início os produtores, por falta de conhecimento, não acreditavam na eficácia do produto. Agora, depois de dois anos de trabalho e de verem de perto os resultados positivos, é que isso começou mudar”, explica Bobbio.

Para Daniel a aceitação dos defensivos biológicos vai além de falta de conhecimento. Para ele essa rejeição passa também por questões comportamentais por parte dos produtores “Os desafios para inserção de defensivos biológicos consistem na mudança de comportamento do produtor frente às características do produto, como: melhor época de aplicação, cuidados com o manuseio de produtos biológicos, compatibilidade destes produtos com outros agroquímicos utilizados, dentre outros”.

Porém, com o passar do tempo Vitor diz que o cenário está mudando, prova disso são as estatísticas: “Hoje o cenário já é outro. Esse primeiro trimestre de 2019 as vendas de defensivos biológicos aqui na loja foram três vezes maior que o primeiro trimestre de 2018”, aponta Vitor.

Thiago Dallapicula Gama, engenheiro agrônomo e produtor rural na Fazenda Alvorada, em São Mateus, faz parte da lista dos que não acreditavam nos biodefensivos. Thiago conta que há um ano, por insistência de Vitor, resolveu fazer um teste em sua propriedade “Nem sempre acreditei. Desconfiava dos resultados, tanto que fiz com pé atrás em 30% apenas da plantação, para teste,” explica Gama.

“Os custos na área de teste ficaram mais em conta que os produtos químicos que temos costume de usar”, revela o engenheiro agrônomo e produtor rural Thiago Gama. Foto: Arquivo pessoal

Como os resultados foram satisfatórios já planeja aumentar a área a ser tratada com o produto. “Usei no café e me surpreendi com os resultados. Foi muito interessante. Fiz para tratamento de cochonilha, mas acabou alcançando mais pragas. Fiquei muito satisfeito e vou aumentar a área a ser tratada com defensivo biológico”, diz Gama.

Sobre os efeitos dos biodefensivos, Arruda diz que com o passar do tempo tem se percebido que eles são “a solução para o manejo de pragas e doenças que até então não se tinha um controle efetivo. Além disso, muitos biodefensivos possuem outros benefícios como promoção de crescimento vegetal, indução de resistência e aumento de produtividade”.

Outro ponto importante em favor dos defensivos biológicos é o custo. Os biodefensivos, segundo afirma Arruda, possuem um bom custo-benefício, e por vezes, sai bem mais em conta que defensivos químicos. Essa vantagem também foi percebida por Thiago. “Os custos na área de teste ficaram mais em conta que os produtos químicos que temos costume de usar”, conclui.

Sustentabilidade x exigência de mercado

Vitor lembra que alguns compraram a ideia do uso dos defensivos biológicos por uma questão de sustentabilidade, outros não tiveram alternativas senão o uso dos biodefensivos para atender o mercado externo. “Muitos resolveram testar os defensivos biológicos pela sustentabilidade e equilíbrio, pela busca de bem estar. Outros foram forçados a buscar alternativas que não o uso de defensivos químicos. Muitas moléculas desses compostos estão proibidas de uso em produtos distribuídos no mercado externo”, afirma Bobbio.
Produtor e exportador de mamão papaya em Linhares e Sooretama, Bruno Pessotti é um desses produtores. Bruno conta que para atender o mercado internacional foi preciso lançar mão desses produtos. “Desde 2012 já usava inseticida orgânico, porém pra atender o mercado Europeu tivemos que partir para novos produtos como o fungo do gênero Beauveria e outros mais”, salienta o produtor.

Bruno lembra que essa não chega ser uma exigência do mercado externo, porém, “com o uso de defensivos químicos, o produtor terá que obedecer o limite tolerante de resíduo e o tempo de carência da molécula. Ou seja, o período de degradação do produto”, reforça Pessotti.

Quando o assunto são os custos Bruno aponta que, “dependendo do momento do mercado ou da demanda voltada para exportação compensa o uso dos defensivos biológicos”, conclui.

Defensivos biológicos

Segundo o engenheiro agrônomo do Instituto de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) Renan Batista Queiroz “os defensivos biológicos são produtos à base de organismos vivos, que podem ser bactérias, fungos, vírus e até mesmo nematoides, e são utilizados nos cultivos agrícolas visando o controle de algum inseto-praga, doença ou plantas daninhas”.

Renan Batista Queiroz, engenheiro agrônomo do Incaper, explica que existem várias diferenças entre os defensivos biológicos e os pesticidas tradicionais, mas a principal delas é a sustentabilidade. Foto: Arquivo pessoal

Renan explica que existem várias diferenças entre os defensivos biológicos e os pesticidas tradicionais, mas a principal delas é a sustentabilidade. “A capacidade do uso dos biológicos em promover maior sustentabilidade nos cultivos agrícolas, devido à sua seletividade é, dentre outros pontos, a principal diferença em relação aos pesticidas. Isso porque a maioria deles têm especificidades para os organismos alvo de controle. Já os pesticidas tradicionais possuem um amplo espectro de ação, o que pode afetar diversos outros organismos não alvo, inclusive inimigos naturais benéficos que já se encontram naturalmente no ambiente”, relata Queiroz.

O engenheiro agrônomo aponta outras vantagens para o uso dos biodefensivos, diz que o cenário está mudando e que esse é um caminho sem volta. “Além das especificidades citadas acima, os biodefensivos deixam baixo ou nenhum resíduo nos produtos agrícolas, tem a possibilidade de utilização em sistemas orgânicos e não contaminam o meio ambiente. Esse, com toda certeza, é o caminho. Nesse momento diversas empresas multinacionais que produzem pesticidas estão também investindo em pesquisa e desenvolvimento para produção de biodefensivos, elas perceberam que o cenário está mudando e que o uso de tais produtos é viável e, principalmente, sustentável”, enfatiza Renan. (Matéria publicada na 78ª edição da Revista Procampo)

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