José Roberto Macedo Fontes – Diretor executivo da Brapex

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José Roberto Macedo Fontes, diretor executivo da Brapex. Foto: Arquivo Brapex

José Roberto Macedo Fontes, é engenheiro agrônomo, formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com mestrado em Fitotecnia (Produção Vegetal) e doutorado em Fitotecnia (Produção Vegetal – Melhoramento Genético), também pela UFV. Atuou como professor do ensino superior e pós-graduação. Coordenou o tema Agricultura na Agenda 21 de Linhares. Ex-secretário municipal de Agricultura, de Planejamento e de Saúde, no município de Linhares (ES). Atua como consultor do Sebrae/ES nas áreas de Gestão do Agronegócio, Gestão Integrada da Qualidade, Segurança Alimentar, e Gestão Ambiental. É membro da Câmara Técnica de Fruticultura – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), além de diretor Técnico, nos últimos 12 anos, é também diretor Executivo da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Papaya (Brapex) desde 2016. Ele afirma que a pesquisa no Brasil, há bastante tempo, foi excluída das listas de prioridades dos nossos governantes e seus governos em todas as esferas públicas. Leia!

Procampo – A área cultivada com papaya sofre redução no ES e no Brasil. Qual a causa?
José Roberto Macedo Fontes – A lei maior da demanda e da procura sempre sobrepõe com maior poder os produtos de origem agrícola. Apesar do mamão não possuir um período específico de safra, produzindo o ano inteiro, também sofre as consequências desta lei, principalmente quando a oferta fica em baixa, em alguns períodos, decorrente, principalmente pela ação de efeitos climáticos adversos. Devido ao alto valor agregado na fruta nestes períodos, muitas novas áreas surgem, trazendo como consequência, uma alta oferta do produto no mercado. Como o mercado interno de frutas tropicais não age de forma ordenada e possui grande desorganização (os mercados de SP e RJ são os principais centros de comercialização), sempre temos crises nos preços de uma ou outra fruta, que concorrem entre si, podendo levar a grandes perdas econômicas para o produtor de frutícolas, fazendo com que também o mamão se torne uma cultura de alto risco econômico, fazendo que os produtores e empresas, em todo o Brasil,reduzam a área plantada e até saiam da atividade.
Outro fato desta redução diz respeito ao alto investimento financeiro inicial, exigido na produção do mamão, que por ser uma cultura altamente influenciada pelos fatores climáticos, caracteriza-se como cultura de alto risco e, consequentemente, faz com que o produtor arrisque em áreas menores. No primeiro ano de produção, o mamão Hawaí/Variedade Solo chega a custar R$30 mil/ha, fechando no segundo ano, com um investimento total de mais de R$60 mil/ha. Com a ocorrência constante de fatores climáticos adversos, associados à elevação da pressão de pragas, incluindo as viroses do mamoeiro, os produtores têm, cada vez mais, reduzido a área de plantio, em função dos riscos econômicos.
Já, no caso do mamão formosa, têm-se observado o inverso, com um aumento percentual de sua área plantada. Apesar do investimento inicial ser um pouco maior para esta variedade de mamão, ultrapassando os R$32 mil/ha, no primeiro ano e podendo chegar a um total de mais de R$70 mil/ha ao final do segundo ano, sua maior produtividade, que pode chegar ao dobro da produtividade conseguida na variedade solo, compensa o maior investimento.
Logo, como no ES predomina o cultivo da variedade do mamão Hawaí/solo, na última década, saímos de uma área plantada de mais de 13mil ha, e vimos a mesma cair para menos da metade deste valor, atualmente. Outro fato que colaborou com esta redução de plantio no ES, foi a migração de boa parte dos plantios realizados pelas maiores empresas exportadoras da fruta para o Nordeste Brasileiro, principalmente no RN e Ceará. Apesar do ES continuar a ser o atual maior exportador da fruta, neste ano de 2019, as exportações realizadas pelo RN devem empatar com o ES. O motivo principal desta migração, além da pressão das viroses do mamoeiro, foi a melhor logística de exportação ofertada pelo NE, além do clima nordestino propiciar uma maior precocidade da produção e, consequentemente, menor longevidade das plantas.

Procampo – O uso de defensivos agrícolas é um fator controverso na produção de frutas frescas. Qual a posição da Brapex?
José Roberto Macedo Fontes – O apelo do consumidor de produtos agrícolas fresco, em todo o mundo, tem se voltado para a exigência de produtos saudáveis. E, justamente pela verdade inquestionável de que produtos frescos oferecem maior qualidade nutritiva e “saudabilidade alimentar”, alguns desavisados e desprovidos de informação científica, tentam atrelar a ideia de que produto saudável é aquele produzido sem o uso de defensivos agrícolas. É preciso desmistificar esse assunto. Cada vez mais, cientistas e profissionais respeitados em todo o mundo tem mostrado que o uso racional e correto dos defensivos nas culturas, associado às BPA – Boas Práticas Agrícolas (GMP – Good Management Pratices) são capazes de produzir um produto altamente saudável e, inclusive, tendem a possuir maior segurança do alimento, quanto ao risco de contaminação biológica, quando comparados àqueles produzidos em sistemas totalmente orgânicos, onde o risco da contaminação biológica é elevado.
As BPA garantem a segurança do produto produzido com o uso dos defensivos agrícolas, cujo modelo precisa ter seu reconhecimento favorável. Será impossível produzir alimento suficiente para o mundo sem o uso das novas tecnologias associadas ao plantio convencional. Mesmo se avançássemos em larga escala no aumento de áreas cultivadas em cultivos orgânicos, seria impossível produzir a demanda do mundo. Sem falarmos que a estratégia do aumento de área cultivável deve ser abolida, em respeito ao meio ambiente.
Outro fato que nos leva à adoção consciente do uso de defensivos agrícolas é a nossa condição de país tropical, onde a pressão de pragas é bem maior, além do clima nos permitira produção agrícola ao longo de todas as estações do ano, sem o fator de quebra de ciclos das pragas, ocorrido nos países de clima temperado a frio.
Vale lembrar que o Brasil mostra um modelo de produção do mamão para exportação, altamente reconhecido nos principais e mais exigentes mercados internacionais há várias décadas, baseado nas Boas Práticas Agrícolas, atendendo a mais alta exigência do mercado internacional. Mesmo porque, as BPA englobam o uso de produtos biológicos e provenientes de essências naturais, sem falar na adoção da tecnologia dos inimigos naturais nos casos aplicáveis, antes da utilização da ferramenta do controle químico.

Procampo – O PL do Agrotóxico é uma saída?
José Roberto Macedo Fontes – É preciso esclarecer que não existe uma única saída. Trata-se de um assunto extremamente complexo e o Projeto da Lei do Agrotóxico não resolverá tudo. Mas, sem dúvida, trata-se de uma nova lei que contribuirá, principalmente, para que o produtor deixe de ser marginalizado pelo uso de defensivos agrícolas em sua lavoura.
No entanto, para promover a sustentabilidade em nosso planeta, precisamos sim, encarar de frente os desafios gerados pela tecnologia de uso dos químicos em nossas lavouras e o problema gerado pela dificuldade de registros de novas moléculas de defensivos mais eficazes e menos danosos ao meio ambiente. Seja pelo excesso de burocracia, por isso desnecessária, no registro dos defensivos, ou pelo alto custo envolvido no processo, o Brasil paga caro por sua legislação ultrapassada e ineficiente na fiscalização. Tratam-se de problemas que precisam ser resolvidos o quanto antes. O mundo hoje nos apresenta moléculas eficientes e de baixíssimo impacto ambiental, no entanto, ainda fora da realidade da fruticultura brasileira, simplesmente pela nossa legislação arcaica, referente ao tema.
A recém aprovada Lei das Minors Crops, associada ao PL do Agrotóxico tem como principal objetivo atualizar a nossa legislação e abrir possibilidades para solução de diversos problemas relacionados ao tema, sem, no entanto, colocar em risco o meio ambiente e, muito menos, a saúde dos consumidores. Infelizmente, o assunto ficou polêmico muito mais por bandeiras políticas e/ou ideológicas, levantadas por pessoas sem conhecimento científico sobre o assunto, que propriamente por reais motivos de riscos ao meio ambiente e/ou à saúde pública. Pelo contrário, vejo que a proposta da nova lei, trata o assunto de forma científica, como precisa ser, e trará muito mais conforto não só para as empresas e profissionais sérios, como também para os órgãos públicos controladores, que trabalharão com a ciência pura e seus resultados experimentais, trazendo, enfim, a segurança ambiental desejada por todos.

Procampo – A pesquisa agropecuária de uma maneira geral foi bastante reduzida nas ultimas décadas, e o papaya não deve ser uma exceção. Como o Sr. vê a relação da pesquisa com a cadeia produtiva do papaya?
José Roberto Macedo Fontes – A pesquisa no Brasil, há bastante tempo, foi excluída das listas de prioridades dos nossos governantes e seus governos em todas as esferas públicas. Apesar do setor produtivo estar sempre a mostrar o caminho, a pesquisa, por falta de recursos, prioriza outras áreas, que apesar de não serem menos importantes, não solucionam os nossos problemas. Isso é uma contradição, pois, justamente o Agronegócio que sustenta a balança comercial e possibilita o dinheiro para pesquisa, não possui voz de comando no direcionamento das linhas de pesquisas. Infelizmente, o Brasil ainda não se conscientizou de que somos um país essencialmente agrícola e que podemos sim, participar das decisões globais, “segurando o mundo pela boca”. Pois nenhum outro país possui tamanha disponibilidade de recursos naturais e clima favorável como o Brasil, para assumir a dianteira na produção mundial de alimentos. Logo, apesar do bom relacionamento entre o setor produtivo do papaya e a pesquisa pública, pouco se tem produzido frente ao potencial existente e a grande demanda de pesquisa apresentada pelo setor. O pouco que se tem produzido está principalmente ligado ao apoio econômico e financeiro dado pela iniciativa privada do setor aos órgãos públicos de pesquisa e também pela realização da pesquisa pelas próprias instituições privadas e empresas associadas à Brapex.
A Brapex tem continuamente contribuído, através de suas associadas, com recursos econômicos e financeiros para promover a pesquisa no setor. Como resultado, temos várias tecnologias desenvolvidas, com excelentes resultados proporcionados nos setores produtivos, de processamento pós-colheita e de comercialização do mamão brasileiro.

Procampo – Quais os principais gargalos que a pesquisa precisa atentar para a produção de papaya com qualidade?
José Roberto Macedo Fontes – A disponibilidade de materiais genéticos mais produtivos e/ou adaptados às diversas regiões produtoras no Brasil é, sem dúvida, um grande gargalo. Sem um programa público sério e eficiente de pesquisa, incluindo o melhoramento genético e manutenção de um banco de germoplasma para a cultura do mamão, o que vimos, desde a década de 80, quando o papaya iniciou sua importância como cultura de exportação, foi a cultura, e o setor produtivo como um todo, sofrer as consequências com o avanço da concorrência internacional. A erosão genética ocorrida nos materiais do grupo solo, campeões de vendas na década de 90 e nos anos 2000, caso da variedade Sun Rise e da variedade Golden, trouxe grandes perdas para o setor. Perdeu-se os materiais genéticos originais, impossibilitando o melhoramento genético dos mesmos de forma a obter as necessárias melhorias, sejam na aparência dos frutos, com manutenção da qualidade intrínseca, seja na incorporação da maior resistência natural às pragas. Vários anos de pesquisa foram necessários para recuperar este tempo perdido e, mesmo assim, ainda não possuímos materiais genéticos adaptados, amplamente disponíveis para os produtores. Os produtores, em sua maioria, seguem separando suas próprias sementes e produzindo as suas mudas, com replicação, muitas vezes, de um material genético de baixa produtividade/qualidade.
Outro importante gargalo encontra-se na garantia do shelflife ou vida de prateleira do fruto. Não possuímos ainda um defensivo agrícola em pós-colheita com a eficiência apresentada pelo extinto princípio ativo Procloraz. Apesar dos controles disponíveis e realizados em campo, o mamão tem apresentado pouca resistência às doenças pós-colheita. Isto reduz a competitividade brasileira no mercado externo, pela impossibilidade de realização da logística de transporte marítimo e, consequentemente, aumentando, em muito, os custos do produto final com a logística aérea. Sem falar também nos grandes prejuízos ocorridos no mercado interno, principalmente em períodos de grande oferta de produto no mercado e/ou nos períodos das chuvas.

Procampo – O PEDEAG identificou que um dos responsáveis pela redução do consumo de papaya no Brasil foi a perda de doçura da fruta. O Sr. concorda com isto? E na sua opinião, o que teria ocasionado esta mudança no sabor da fruta?
José Roberto Macedo Fontes – De certa forma, como dito anteriormente, tivemos um grande problema com a erosão genética da variedade Sunrise Solo, que era, naturalmente, o material com maior teor de sólidos solúveis e, consequentemente, de maior doçura que possuíamos até o início dos anos 2000. Por tornar-se uma variedade que apresentava uma maior incidência de mancha fisiológica e apresentar características de menor resistência de polpa, esta variedade perdeu espaço para a variedade Golden, que, apesar de possuir teor de sólidos solúveis mais baixo, apresentava uma melhor aparência e maior resistência de polpa, facilitando o transporte marítimo e, consequentemente, permitindo o aumento no volume de exportação.
Com a erosão genética ocorrida também na variedade Golden, e por problemas de controle das tecnologias de nutrição associados a efeitos climáticos adversos, tivemos grandes problemas para manter o padrão de qualidade dos frutos. Como consequência, o consumidor hora comprava uma fruta extremamente doce, hora uma mesma fruta “aguada” e/ou sem sabor adequado. Infelizmente, os materiais que surgiram a seguir ainda não garantiram a boa qualidade dos mesmos de forma duradoura e constante.
Principalmente através da pesquisa privada, alguns bons materiais têm surgido e, hoje, temos alguns excelentes materiais, no entanto, ainda não tão divulgados e/ou disponíveis facilmente aos produtores em larga escala.

Procampo – Fale sobre a Brapex, o que ela representa para o setor.
José Roberto Macedo Fontes – A Brapex surgiu de uma necessidade de organização das estratégias mercadológicas de algumas empresas linharenses de exportação de mamão. Logo após criada, seus poucos associados viram o importante papel que a mesma poderia exercer para organizar o setor como um todo, no entanto, o foco continuava para o mercado externo. Com a abertura do mercado americano, fruto do incansável trabalho de seus associados, juntamente com o apoio de instituições públicas, como o Incaper e o Ministério da Agricultura, a Brapex teve reconhecimento internacional e tornou-se referência no mercado de mamão de qualidade.
Logo, com a entrada do capital estrangeiro também nas principais lojas de atacado e varejo de frutas e o consequente aumento da exigência do mamão de qualidade também no mercado interno, a Brapex via a necessidade de atuar também no setor produtivo com foco no mercado interno e, assim, passou a contar com os produtores em seu quadro de associados, para transferência de tecnologia para todo o setor. Assim, a Brapex atingiu seu maior potencial, não apenas defendendo o setor nas diversas esferas e instituições públicas e privadas, como também na transferência de tecnologia para os seus associados, contando coma parceria de diversas empresas dos mais variados campos e atuações na área da fruticultura. Com isso, a Brapex possui representação de associados em várias regiões e vale-se como porta-voz de seus interesses, sendo signatáriano acordo bilateral de exportação para o mercado americano, juntamente com o APHIS – Animal and Plant Health Inspection Service/USDA – United States Department of Agriculture, possuindo também assento na Câmara Setorial da Fruticultura, em Brasília, No Ministério da Agricultura, Confederação Nacional da Agricultura e na Abrafrutas – Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados.
Com alteração em seu estatuto, hoje a Brapex conta também em seu quadro de associados, com empresas que exercem outras atividades no amplo espectro da fruticultura, além da produção e exportação de mamão. Com isso, podemos ofertar ao setor a mais alta tecnologia em diversas áreas na cadeia da fruticultura tropical e temperada em todas as suas fases, da produção à comercialização e logística. Estamos à disposição dos produtores e empresas do setor de fruticultura em geral na Av. Governador Florentino Avidos, n°80/Salas 410 e 411, Edifício Center Norte Conceição, em cima da Caixa Econômica Federal. Tel. (27) 3264-0477.

Entrevista publicada na 77ª edição da Revista Procampo (Jan/Fev 2019)

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