Erasmo Negris – Presidente COOPBAC

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Erasmo Negris - Presidente COOPBAC. Foto: Arquivo COOPBAC

Prestes a completar 50 anos, o presidente da Cooperativa dos Produtores Agropecuários da Bacia do Cricaré – COOPBAC, Erasmo Carlos Negris, exibe muita maturidade. Em entrevista à Procampo, esse mateense, produtor rural e bacharel em Ciências Contábeis, disse que atualmente a COOPBAC já é destaque no Brasil, passando a ser referência na exportação de pimenta-do-reino, alinhando a visão da cooperativa estabelecida no plano estratégico.
“Pipericultor de nascença”, como gosta de frisar, Erasmo está no terceiro mandato como presidente da cooperativa. Leia!

Procampo – Apresente-nos a Cooperativa dos Produtores Agropecuários da Bacia do Cricaré – COOPBAC. Nestes anos de atuação, quais foram as principais conquistas?
Erasmo Negris – A COOPBAC teve o início de suas atividades no ano de 2005, buscando fundamentalmente em seu início, trazer segurança aos seus cooperados no quesito de armazenamento de sua produção.
Com o passar dos anos, outros serviços foram sendo agregados, dentre eles a comercialização de insumos, treinamento e capacitação dos produtores, ampliação do portfólio de comercialização com inserção de produtos como a pimenta-do-reino, coco verde e seco, gengibre, inhame, macadâmia e o café conilon.
Com a estruturação do planejamento estratégico em parceria com o Sistema OCB-SESCOOP/ES em 2014, foi detectada uma necessidade por parte dos cooperados, para que a cooperativa atuasse de forma mais consistente na cadeia produtiva da pimenta-do-reino.
Como esta especiaria é em grande proporção exportada, iniciamos a estruturação da cooperativa para adquirir know-how na cultura exportadora, realizando as adequações físicas, contábeis, fiscais e tributárias para atendimento a esta legislação específica. Vale ressaltar a grande parceria obtida junto à cooperativa CAMTA de Tomé-Açú (PA), primeira cooperativa brasileira a exportar pimenta-do-reino, que contribuiu para alcançarmos nossos objetivos.
Atualmente a COOPBAC já é destaque no Brasil, passando a ser referência na exportação de pimenta-do-reino, alinhando a visão da cooperativa estabelecida no plano estratégico.

Procampo – O caminho para a exportação de pimenta-do-reino está pavimentado. A COOPBAC tem planos para exportar café conilon?
Erasmo Negris – Quando se inicia um trabalho neste sentido, a demanda por aprendizado e conhecimento é imensa. Não é fácil exportar, se o fosse, teríamos muito mais empresas e cooperativas envolvidas na atividade.
O exercício do conhecimento é diário, e esta atividade não pode ser tratada com amadorismo, requer uma gama de procedimentos que não estão disponíveis para todos, ou seja, há muita desinformação, e se você não se profissionalizar pode ter problemas seríssimos. Isto porque a sua empresa passa a ser muito dependente das questões cambiais, e em sua maioria, são variáveis externas que não estão sob seu domínio.
Quanto ao café conilon, tivemos neste ano a retomada do comércio internacional, fato que oportunizou a exportação de grande volume até o presente momento. Daí a COOPBAC inserir o café em seu comércio internacional, são grandes passos a serem dados, que se forem sustentáveis, poderá sim haver esta possibilidade, (por que não?) estamos no jogo.

Procampo – Como você vê os altos e baixos dos preços da pimenta-do-reino. O preço atual remunera o pipericultor?
Erasmo Negris – É fato que a pimenta-do-reino possui cenários de preços altos e baixos, isto pode ser aferido pelos gráficos que demonstram a variação do preço em tonelada/dólar ao longo dos anos. Tivemos uma conjugação nos últimos anos que foi perfeita, onde havia baixo estoque mundial, valorização da tonelada em dólar chegando a ultrapassar os 10.000 $/t, e um cambio valorizado chegando o dólar a mais de R$ 4,00.
É fato também que se no Brasil se plantou muitos pés de pimenta-do-reino, esta convergência foi também a nível mundial, ou seja, o cenário começou a ser inverso, onde os estoques mundiais aumentaram, a oferta cresceu, o preço em tonelada/dólar reduziu substancialmente chegando ao nível de 1.800 $/t, atrelado a isso a grande flutuação cambial onde tivemos o dólar cotado em certo período abaixo de R$3,20.
Quanto a remunerar o pipericultor, outro exercício deve ser feito. No caso da pimenta-do-reino havia uma grande predominância da agricultura familiar quando o preço não tinha ainda oscilado tanto, e que após a alta dos preços, deu uma nova ‘cara’ aos pipericultores. Atualmente há grandes investimentos, onde novos pipericultores surgiram e muitas vezes implantando lavouras enormes, trazendo consigo ainda o agricultor familiar que também ampliou sua área de produção.
Neste cenário há o produtor que ‘faz conta’, e produtor que ‘não faz conta’. Há em alguns casos o desconhecimento do real preço de custo da atividade, e o que para uns pode se apresentar um custo baixo, para outros este custo pode se apresentar extremamente alto. Assim, quando não se sabe qual o custo de produção, qualquer preço pode ser muito baixo ou muito alto. Por isso orientamos aos produtores buscarem apoio de parceiros como o Sebrae-ES, o Senar, ou consultorias privadas para auxiliarem na elaboração do planejamento de sua atividade.

Procampo – De modo geral, as cooperativas complementam as empresas públicas de pesquisa e extensão rural na capacitação dos seus associados. O que a COOPBAC tem feito nessa direção?
Erasmo Negris – A COOPBAC, desde 2014, assumiu a prerrogativa no estado do Espírito Santo de buscar tecnologias e soluções para seus cooperados, atuando de forma mais consistente na cadeia produtiva da pimenta-do-reino.
Muitas ferramentas de capacitação já existiam para o café, e na pipericultura as pontas estavam muito soltas. Nosso direcionamento foi de buscar parcerias estratégicas com vários órgãos nos âmbitos federal, estadual e municipal, formatando parcerias público-privadas, objetivando a estruturação da cadeia produtiva da pipericultura.
Vários encontros de capacitação, dias de campo, inclusão no Pedeag, incentivos às pesquisas, atuação junto aos governos, aos parlamentares e instituições de ensino, foram as ações mais marcantes da COOPBAC nestes anos.
Temos a sensação de que há muito trabalho ainda por ser feito, mas temos a tranquilidade de que fizemos a nossa parte e a COOPBAC deu enorme contribuição catalisando esforços para que a pipericultura ocupasse o espaço de destaque que lhe é cabida, visto que é para nosso Estado, importante contribuinte para o PIB gerando emprego, mitigando as desigualdades e trazendo renda aos envolvidos.

Procampo – Qual a expectativa para os novos governos que tomam posse em janeiro?
Erasmo Negris – É inerente ao ser humano a esperança. Todos os anos, ao virar o 31 para 1º, fazemos várias promessas a nós mesmos, esperançosos que dias melhores virão. No entanto, se somente esperarmos e não agirmos, nem tudo se concretizará.
No tocante aos governos, comungo da ideia que nossa democracia é muito jovem, temos muito a construir neste viés. A cada nova eleição, ao teclar o ‘confirme’, paira em nós o mesmo espírito de esperança. Esse exercício democrático nos remete à sensação de estarmos fazendo a nossa parte, mas não deve ficar por aí, pois os governantes são mandatários por nós habilitados, passamos com nosso voto uma procuração para que em nosso nome ele exerça o mandato de forma digna, honesta e transparente. Infelizmente, alguns eleitos não se lembram disso ou preferem ‘esquecer’, conforme sua conveniência, trazendo sofrimento e angústia ao povo.
Penso que seria imensamente válido se os governos adotassem os princípios cooperativistas em sua gestão, daí teríamos tanto governantes quanto governos melhores para a população.
Quanto aos novos governos, foram escolhidos pela maioria, e para mim, a vontade da maioria deve prevalecer. Caso não cumpram seus deveres, novamente teremos a possibilidade de mudanças numa próxima eleição.

Procampo – A COOPBAC tem planos para ampliar sua atuação?
Erasmo Negris – Em parceria com o Governo do Estado/Seag e a OCB/ES, há 03 anos a COOPBAC está inserida no PROGESCOOP – Programa de Gestão de Cooperativas, que está sendo ministrado pela Fundação Dom Cabral e DVF em nosso Estado. Este programa tem em seu cerne a formação de gestores, capacitação e treinamento das equipes envolvidas no processo decisório e busca dar ferramentas capazes de trazer sustentabilidade aos negócios das cooperativas, para que assim se organize e consiga caminhar com as próprias pernas.
Dentre várias ações desenvolvidas, há a formatação do planejamento estratégico anual, onde são estabelecidas as diretrizes a serem trabalhadas. Tais procedimentos são fundamentais para a continuidade das atividades, estruturando a cooperativa para que se tenha sustentabilidade nos negócios em futuras trocas de gestores, haja visto que, no processo democrático do cooperativismo, todos os cooperados habilitados e em dia com suas obrigações sociais poderão vir a disputar cargos eletivos na mesma.
No planejamento estruturado para 2019, há estabelecida meta de ampliação sim, tanto no quesito de melhorar nossa participação no chare dos cooperados, quanto na ampliação de nossos negócios.
Importante ressaltar que todo crescimento será meticulosamente estudado, pois a sustentabilidade é o alicerce principal, nada faremos que não tenhamos condições de cumprir.

Entrevista publicada na 76ª edição da Revista Procampo (Nov/Dez 2018)

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