Saboroso, nutritivo e rentável

0
305

Cultura do abacate vem ganhando expressividade na Região Serrana capixaba. Ampliação de mercado é potencial

Pode parecer estranho falar em cultivo de abacate no Espírito Santo, estado reconhecido pela alta produção de café e também mais recentemente de pimenta-do-reino, entre outras culturas consideradas mais tradicionais.

Apesar de os principais produtores da fruta no Brasil serem Minas Gerais, Paraná e São Paulo, o cultivo do abacate ganha cada vez mais espaço em terras capixabas, chegando a 500 hectares de plantio e produção média de cinco mil toneladas por ano. Dados do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) mostram que há aproximadamente 190 produtores no Estado, estando estes concentrados na Região Serrana, especialmente em Marechal Floriano, Venda Nova do Imigrante e Afonso Cláudio. O clima desta região é propício para a fruta, pela variação climática, especialmente para duas variedades: Margarida e Primavera.

A variedade Primavera, cultivo originário da Região Serrana do Estado, possui frutos maiores, com peso médio de 700 gramas, 74% de polpa. A aparência é de um abacate comum, com coloração verde e formato elíptico. O cultivo apresenta tolerância a pragas e doenças e excelente produtividade: cada planta pode produzir 120 kg do fruto por ano. A produção é concentrada nos meses de agosto e setembro. Já a variedade Margarida apresenta várias características da raça Guatemalense, como folhas novas com coloração arroxeada, frutos redondos e de casca rugosa, a polpa é verde clara e o caroço pequeno. A maturação é tardia e apresenta ótima resistência pós-colheita.

Dia de campo em Marechal Floriano: as experiências capixabas com cultivo do abacate

Justamente pela relevância que vem adquirindo e também pelas possibilidades para diversificação de culturas nas lavouras, o Incaper, em parceria com a Secretaria de Agricultura de Marechal Floriano e o Sindicato Rural, promoveram, no ultimo mês, o Dia de campo sobre a cultura do abacate.

De acordo com Ubaldino Saraiva, extensionista do Incaper de Marechal Floriano, esse dia de campo foi muito importante para levar informações ao agricultor da Região Serrana, incentivando a diversificação, uma vez que o abacate pode ser cultivado em paralelo a outros cultivos, sendo uma forma de incrementar a produção e a renda, especialmente, na agricultura familiar. “O pequeno produtor não pode estar à mercê de apenas uma cultura e o abacate é uma opção promissora no Estado, em decorrência do clima e também da ampliação do mercado”, ressaltou.

No evento, que ocorreu no Sítio Lago, em Marechal Floriano, propriedade da Família Venturini, estiveram presentes produtores, a equipe da Revista Procampo, estudantes da Escola Técnica Victório Bravim e técnicos de vários municípios, que puderam participar de uma série de palestras sobre o tema, como a escolha da área para plantio, das variedades, os cuidados de colheita e pós-colheita, o ataque de pragas e à incidência de doenças, como a ferrugem, dentre outras questões discutidas pelos pesquisadores do Incaper, Maurício Fornazier e Hélcio Costa.

O dia de campo também orientou os participantes com relação à importância do planejamento desde o início da atividade, com a implantação da lavoura e a importância da nutrição das plantas para garantir melhores resultados na vegetação e frutificação dos abacateiros.

Foram realizadas, também, duas demonstrações: sobre o uso do pulverizador do tipo canhão atomizador para suprir a planta com micronutrientes e também acerca da técnica de enxertia.

Dia de campo sobre a cultura do abacate, no Sítio Lago, em Marechal Floriano, de propriedade da Família Venturini, realizado no início de maio

Alberto Falqueto, um dos principais e mais antigos produtores de abacate de região de Venda Nova do Imigrante, sendo um dos pioneiros do cultivo em todo o Estado, também falou sobre as variedades e inserção no mercado.

Em entrevista à Revista Procampo, o produtor conta que, quando começou com o cultivo, há aproximadamente 40 anos, um grupo maior de agricultores também começou a produzir abacate, contudo, o que o fez sair na frente e permanecer no mercado foram os investimentos em estudos sobre as variedades e formas do cultivo.

Falqueto, que produz principalmente a variedade Margarida, conta que em termos de mercado, além do nordeste, a exportação tem sido mais vantajosa, uma vez que os preços são mais estáveis. Os principais países compradores dos seus produtos são os europeus, especificamente França e Portugal.

Alberto Falqueto, um dos mais antigos produtores de abacate da região de Venda Nova e um dos pioneiros do Estado. O produtor começou com o cultivo do abacate há aproximadamente 40 anos

Sobre sua palestra no dia de campo, o produtor destaca: “alertei os produtores a plantar poucas plantas, cuidar para se ter qualidade. Começar com muito, geralmente, não é uma boa escolha. A questão mais complicada é a colheita porque o fruto é delicado e amassa com facilidade. Seria muito importante treinar pessoas para esse tipo de colheita específica. O mercado, sobretudo o internacional, exige produtos de ótima qualidade, ficando atento também em relação à estética, uma vez que o fruto do abacate pode ser amassado ou machucado com facilidade”.

O agricultor Pedro Venturini contou sua experiência com o plantio do abacate, iniciada há alguns anos. O produtor destacou que a estabilidade econômica tem início a partir do terceiro ano. “O ano passado colhemos 60 toneladas, em um total de 490 plantas, dando uma média de 122 kg por planta. Esse ano a expectativa é 80 toneladas no total. Ano passado, o preço por quilo variou de 90 centavos a 2,50 o quilo”, conta Venturini.

O produtor Pedro Venturini e o extencionista do Incaper, Ubaldino Saraiva

Saúde abre espaço para o mercado do abacate

Após levar fama de vilão por muito tempo devido ao seu valor calórico, estudos recentes elucidaram melhor as suas propriedades benéficas à saúde.

De acordo com Elisa Liz, nutricionista e Mestre em nutrição e saúde pela Universidade Federal do Espírito Santo, o abacate é uma das frutas que mais se destaca pela sua qualidade nutricional, com altos teores de vitaminas e minerais. “É rico em ácido oleico, que auxilia na redução do risco de doenças cardiovasculares, o que tem influenciado em um aumento do consumo e expansão deste mercado”, destaca ela.

A divulgação destes novos estudos indicam mudanças em um cenário de pouco consumo – o mercado interno brasileiro. De acordo com dados do IBGE, até 2010, o consumo per capta no Brasil é de apenas 0,301 gramas/ano. Para um país de tamanho continental esse consumo fica bem abaixo do esperado, já que em outros países como o México o consumo per capta fica em 8 quilos e nos Estados Unidos é de 5 quilos.

Outro potencial do abacate em termos de saúde é o mercado de azeite de abacate, que está em fase de pesquisa. Pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) estudam a extração de azeite fino de abacate pelo sistema de centrifugação, a mesma tecnologia utilizada no processamento do azeite de oliva, no campo experimental da empresa, em Minas Gerais. A pesquisa indica que a produção do azeite de abacate possibilita um produto de altíssima qualidade, disponível imediatamente para o consumo, após padronização e embalagem para o mercado.

Para quem deseja começar o cultivo

Em entrevista à Revista Procampo, o extensionista do Incaper de Marechal Floriano, Ubaldino Saraiva, especifica o passo a passo com dicas para os produtores que desejam iniciar este cultivo:

– Escolha do local adequado:
Altitude: o abacateiro se adapta em altitudes que variam entre 300 metros e até 1.000 metros;
Solo: não pode ser encharcado e também precisa ser enviado para análise;

– Espaçamento: variado. Pode ser 10×10 m (desde que não haja intenção de interferir na poda). Contudo, 6×6 m ou 8×6 m é o ideal quando se quer trabalhar com a poda. Também é preciso estar atento à questão de sombreamento em relação à outra cultura;

– Definir a variedade: o abacateiro possui flores hermafroditas, por isso, é preciso plantar variedades do grupo A e do grupo B (referente ao órgão sexual masculino e feminino) para que possa assegurar efetiva polinização;
Exemplos de variedades: Geada (B), Fortuna (A), Ouro Verde (A), Breda (B), Margarida (B). As abelhas também são importantes nesse processo;
– Atentar para a qualidade da muda é fundamental.

Reportagem publicada na 73ª edição da Revista Procampo (Mai/Jun 2018)
por Lara Carlette
Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here