Revista ProCampo - Uma Leitura Produtiva

 

 
de 2017.   51ª Edição (Agosto/Setembro)  
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Entrevistas

 

01.08.2012 - 11:30

A força da pesquisa

Investimentos em pesquisa científica em prol do desenvolvimento de conhecimentos e geração de tecnologia aplicada tornou a cafeicultura  capixaba uma referência. Um dos responsáveis por tornar o Espírito Santo o 2º maior produtor brasileiro, respondendo por 26% do total produzido no país e ocupar a primeira posição na produção de robusta/conilon – 76% - do volume brasileiro é o Incaper – Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural.
“Atualmente são 30 projetos de pesquisa, 103 experimentos, conduzidos nas diferentes áreas do conhecimento, que geraram várias tecnologias, produtos e conhecimentos”, destaca Romário Gava Ferrão, pesquisador e coordenador do Programa Estadual de Cafeicultura.
O capixaba de Castelo, sul do Espírito Santo, Romário Gava Ferrão é formado em agronomia pela Universidade Federal do Espírito Santo – CCA-Ufes/Alegre e Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Viçosa/MG. Romário fala nesta entrevista de um projeto amplo, das metas, dos desafios e informa que se fosse um país o Estado do Espírito Santo seria o 3º maior produtor mundial dessa rubiaceae. Leia para saber.

ProCampo - Qual a atual situação da cafeicultura no Espírito Santo?
Romário Gava Ferrão - A cafeicultura capixaba – em volume e produção situa o Espírito Santo em posição diferenciada, em relação à maioria dos estados brasileiros. Ela é uma atividade agrícola centenária e de relevante importância na geração de emprego e renda para o Espírito Santo. O estado é o segundo maior produtor brasileiro, respondendo por 26% do total produzido no país. Para o conilon, ocupa a primeira colocação com 76% do volume brasileiro.
Mesmo sendo um estado com menos de 0,5 % do Brasil, o café do Espírito Santo, representa cerca de 20% do café robusta e 7% do total produzido no mundo. Se fosse um país o Estado seria o terceiro maior produtor mundial.
O Espírito Santo é o único estado brasileiro com expressiva produção de café arábica e café em conilon. A produção estadual de 12,5 milhões de sacas será recorde em 2012. Desse total, 9,5 serão de café conilon e 3 milhões de sacas de café arábica. Esses volumes serão responsáveis por 45% do Valor Bruto da produção agrícola capixaba.
No pequeno território capixaba, possui uma das cafeiculturas mais competitiva do mundo. Ela está presente em todos os municípios do Espírito Santo, exceto a capital - Vitória. São cerca de 500 mil hectares e 1,2 bilhões de covas de café em produção. Essa cafeicultura oferece 400 mil empregos com o envolvimento de 131 mil famílias, localizada nas 60 das 90 mil propriedades agrícolas do Estado. Mais de 73% da área são cultivadas por produtores de base familiar que possuem em média 8,2 hectares.
A produtividade média estadual de 27 sacas/ha é uma das maiores do Brasil (24,0 sacas/ha). O rendimento médio do conilon de 33,37 sacas/ha; as produtividades superiores a 80 sacas/ha obtidas por muitos cafeicultores que usam adequadamente as tecnologias; as produtividades em ambientes favoráveis superiores a 120 sacas/ha; a condução das lavouras seguindo as boas práticas agrícolas num conceito de sustentabilidade coloca o Espírito Santo em destaque nos cenários brasileiro e internacional
A cafeicultura capixaba é considerada um caso de sucesso. O grande destaque para o conilon é alta produtividade, já para o café arábica a qualidade superior dos diferentes cafés. São muitos os fatores responsáveis pela construção da história e da evolução dos cafés do Estado, mas como destaque, cita-se: aptidão climática, atividade centenária, vocação dos capixabas pelo café, capacidade empreendedora do produtor, investimento em pesquisa científica em prol do desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias aplicadas, adequado trabalho integrado de capacitação e de transferência de tecnologia envolvendo inúmeros parceiros de diferentes instituições, o planejamento e adequada união da cadeia do café.

ProCampo - Quais os principais desafios e os resultados esperados na cafeicultura capixaba?
Romário Gava Ferrão - Avançamos muito na produtividade e melhoria da qualidade final do produto do café capixaba, mas ainda temos um longo caminho a percorrer, até alcançarmos condições para explorar plenamente o nosso potencial. Está sendo construído esse caminho de maneira sólida e sustentável, melhorando as estruturas, a logística de escoamento e exportação, continuando priorizar o desenvolvimento e disseminação de tecnologias e conhecimentos.
A cafeicultura do Espírito Santo possui um planejamento para até o ano 2025. No Plano Estratégico para a cafeicultura capixaba é definido os seguintes desafios e espera-se alcançar as seguintes resultados (metas) para o Estado:
Café arábica
- Renovação e revigoramento de 100% do parque cafeeiro seguindo as boas práticas agrícolas;
- Alcançar a produtividade média de 23 sacas/ha e a produção de 4,0 milhões de sacas por ano;
- Buscar pela excelência: produzir pelo menos 30% de café arábica com qualidade superior.
café conilon;
- Renovar ou revigorar todas as lavouras seguindo as boas práticas agrícolas;
- Alcançar a produtividade média de 43 sacas/ha e a produção de 14,0 milhões de sacas por ano;
- Consolidar a Fase II do conilon que é a busca pela qualidade. Produzir pelo menos 20% de café com qualidade superior;
- Priorizar os trabalhos de pesquisa científica nas seguintes áreas: desenvolvimento de variedades a partir das demandas da indústria e dos consumidores, manejo de irrigação, associação de café com árvores e colheita mecânica;
- Priorizar as ações de marketing nacional e internacional dos cafés capixaba.

ProCampo - Qual foi a contribuição da Conferência Internacional de Coffea canephora recentemente realizada em Vitória para a cafeicultura brasileira e em especial para a capixaba?
Romário Gava Ferrão - A conferência Internacional de Coffea canephora, teve como tema central 100 anos de história e evolução do café conilon no Espírito Santo. Foi um dos mais importantes eventos mundial de café conilon, que foi composto por quatro conferências, cinco painéis de debate, quatro visitas técnicas, visita ao espaço do conilon de qualidade e aos 15 estandes envolvendo a cadeia do café. Mais de mil pessoas de 15 países passaram pela conferência dentre eles: Brasil, Colômbia, Coréia, Costa do Marfim, Estados Unidos, França, Índia, Japão, Indonésia, Inglaterra, México, Portugal, República Dominicana, Uganda, Vietnã.
O evento foi um grande fórum em prol da união, de discussão e promoção das questões associadas à cadeia do café robusta/conilon. Foram discutidos com a comunidade científica e com representantes das diferentes instituições e setores do mundo de Coffea canephora, temas associados aos aspectos conjunturais e de organização dos principais países produtores; à pesquisa científica e inovações tecnológicas, recursos genéticos, biotecnologia, fatores bióticos e abióticos que interferem na produção; qualidade, mercado e indústria; organização dos produtores; aliança das mulheres do café, entre outros; direcionados à competitividade e sustentabilidade desta importante atividade em vários países do mundo.
Além da programação técnica, especialistas nacionais e internacionais avaliaram a qualidade do conilon capixaba. Nessa ocasião também foram lançados um blend de café arábica, a cerveja e a cachaça “Robusta”, usando o nosso conilon. As bebidas foram avaliadas, degustadas e aprovadas pelos especialistas e participantes do evento.
No último dia do evento, muito dos participantes da conferência visitaram uma lavoura de três anos do Sr. Édson Costalonga, distrito de Timbuí, Fundão, ES e fizeram a colheita do conilon. A produtividade média foi de 167,0 sacas beneficiadas por hectare.
Dentre as diferentes apresentações e discussões na conferência, merece maior destaque citar a competitividade da cafeicultura de conilon do Brasil, especialmente a do Espírito Santo. Ficou evidenciada a necessidade de maior união e intercâmbio de conhecimento e de tecnologias entre os países produtores. O robusta/conilon tem um grande potencial de produção e consumo em todo o mundo. Mas, para acelerarmos a maior inserção do conilon no mercado, necessitamos de mais esforços para avançarmos na melhoria da qualidade.
A avaliação do evento foi muito positiva. Na conferência estabeleceu-se um fórum de discussão e transferências de conhecimentos em prol do fortalecimento da competitividade, da produtividade, da qualidade e de sustentabilidade do agronegócio café robusta/conilon do Brasil e do mundo.
 

ProCampo - Aborde o papel que a questão qualidade irá desempenhar na cafeicultura de conilon nos próximos anos?
Romário Gava Ferrão - Os cafeicultores de conilon no geral são empreendedores. Eles evoluiram muito na produtividade devido ao uso correto das tecnologias. Eles têm conhecimento da importância e das vantagens em produzir café com qualidade superior.
O conilon vem ganhando espaço no consumo, por intermédio de sua maior utilização nos blends com o café arábica, no solúvel e nos espressos, que são os cafés, que mais crescem o consumo no cenário mundial.
Atualmente, cerca de 40% do consumo mundial é de café conilon/robusta. As  literaturas sinalizam para os próximos 10 anos a utilização de 50% desses cafés. Mas, para tal, há necessidade de melhorar a qualidade final do produto.
Seguindo as estratégias utilizadas do café arábica, iniciada em 1998 no Estado, que vem gerando uma verdadeira revolução na qualidade desse café no Espírito Santo, o Governo do Estado, em parceria com mais de vinte instituições da cadeia do café capixaba, vêm trabalhando com várias ações, numa campanha no quinto ano, visando melhorar a qualidade do conilon.
Há uma consciência de todos os envolvidos na cadeia do café que fazer qualidade é garantia de mercado, facilidade de venda, maior preço e mais lucro. Ainda o mercado não vem remunera adequadamente o conilon de qualidade superior, mas já há uma sinalização atual de prêmio de 20%. Ao aumentar o volume e a regularidade da produção com qualidade, esse café poderá no futuro, receber prêmios semelhantes aos aplicados ao café arábica.
Os resultados das diferentes ações para melhoria da qualidade do café conilon são positivos. A maioria dos produtores conhecem a importância, as tecnologias e as vantagens de se produzir café com  qualidade superior e vêm trabalhando nesse sentido. A melhoria da qualidade são percebidos pela cadeia – pelos produtores, pelos técnicos, mercado, indústria e pelo consumidor.
 

ProCampo - Quais são as novas tecnologias para o desenvolvimento do café conilon no Espírito Santo?
Romário Gava Ferrão -  A pesquisa científica com o café conilon, é uma atividade dinâmica desenvolvida no Espírito Santo, pelo Incaper e parceiros desde 1985. Nesses 27 anos de pesquisa, vêm sendo executados trabalhos baseados nas demandas levantadas pela cadeia do café. Atualmente são 30 projetos de pesquisas, 103 experimentos, conduzidos nas diferentes áreas do conhecimento, que geraram várias tecnologias, produtos e conhecimentos, amplamente utilizados pelos cafeicultores.
Com base nas demandas, priorizou-se as pesquisas aplicadas. Como resultados utilizados pelos produtors foram as seis variedades, plantio em linha, espaçamento, vergamento, recomendações de calagem e adubação, a poda programada de ciclo, manejo de pragas e doenças, conservação de solo, manejo de irrigação e tecnologias para a melhoria da qualidade final do produto, descritas em diferentes publicações, sendo a mais completa, o livro “Café Conilon”.
A maioria dos trabalhos, têm sido realizado em parcerias com várias instituições nacional e internacional, envolvendo pesquisas básicas e aplicadas. Os destaques atuais e futuros, são as novas variedades clonais a serem lançadas; obtenção de variedades e híbridos sintéticos propagados por sementes; identificação de genes que conferem resistência a ferrugem e a seca; manutenção e caracterização de 500 materiais genéticos por intermédio de descritores agromorfológicos e marcadores moleculares; trabalhos associados a qualidade de bebida, a ferrugem, os nematóides, a nutrição e o manejo de irrigação; manejo da cultura associada com árvores e as tecnologias para colheita mecânica.
Os resultados das pesquisas têm sido amplamente utilizado pelos cafeicultores na renovação de revigoramento de lavouras. Estima-se que 50% dos cafeicultores capixaba (150 mil hectares) já renovaram suas lavouras sob novas bases tecnológicas. Os produtores que vêm usando adequamente as tecnologias, alcançam produtividades de 50 a 150 sacas/ha. Os usos das tecnologias, contribuiram nos últimos 18 anos, para o aumento de mais de 250% na produtividade e na produção de café conilon do Espírito Santo.
Os resultados obtidos, coloca o Espírito Santo como referência no Brasil e no mundo em termos de tecnologia para a produção do café conilon, pois promove aumento da produtividade e melhoria da qualidade. Tudo isso em um contexto que preza pela sustentabilidade das propriedades rurais.

Entrevista publicada na 38ª edição da revista ProCampo (Jun/Jul 2012).


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